6.6.06

Aula nº 21 - Comunicação de Crise


Perante uma crise (algo que sucede e que não estava previsto / situação desfavorável, não controlada) existem duas formas de reagir:

1. Marketing político (que inclui: manipulação, pseudo-acontecimentos, manobras de diversão, campanha negativa, fuga, queimar o adversário…).

2. Comunicação de Crise - Trata-se de uma comunicação muito estudada e com regras predefinidas.

Na primeira hipótese a informação é manipulada. Alguém tenta transformar a realidade a seu favor. Existem variadas formas de manipular numa situação de crise e, uma delas, pode passar pela argumentação de que existem mais pessoas ou empresas envolvidas. Trata-se de uma manobra de diversão – é criada uma “cortina de fumo”. O objectivo ao envolver mais pessoas é retirar o impacto a uma notícia que seria endereçada a um nome específico.
A segunda hipótese é assumir o erro adoptando uma política de transparência.

Se pusermos de lado questões éticas a primeira hipótese é a mais razoável e a mais utilizada quando se tratam de questões políticas. Isto porque, a segunda expõe muito o protagonista. Na política é sempre possível negar (a menos que hajam provas).
No entanto, alguns políticos preferem substituir a mentira pelo “marketing da sinceridade”. Um político por regra mente – mas até eles já perceberam que a sinceridade resulta bem junto da opinião pública. Ainda que na maior parte dos casos assumir as culpas não seja sinónimo de acarretar com as consequências.

Mas há situações em que não é possível negar, como por exemplo quando se trata de empresas de bens de consumo.
Numa empresa de bens de consumo negar o problema é ainda pior. Quando está em causa a saúde / o bem-estar das pessoas (água / bebidas, comida, ambiente/ poluição) é aconselhável assumir porque nestes casos o julgamento social é terrível.

É um erro estratégico uma empresa de bens de consumo negar uma crise mesmo que até tenha razão:

Reconhecer: À luz das regras de comunicação de crise a empresa deve assumir de imediato e tomar medidas para minorar o problema.

Se não é verdade poderá negar mas para isso tem de chamar pessoas a testar, a comprovar. “Estamos convencidos que não temos culpa mas vamos colaborar para apurar isso”.

Observação:
Em situações de crise a comunicação social e a opinião pública colocam-se sempre do lado do consumidor, acusando a empresa. É típico das sociedades a opinião pública estar do lado das vítimas.

A crise começa antes da crise:

Uma crise pode e deve ser preparada previamente. Todas as empresas devem ter o seu manual de crise.

“A preparação de um Plano de Comunicação de Crise assenta em algo que é conhecido e a Crise, por definição, é algo que se desconhece. É possível antecipar alguns elementos relacionados com a Crise e para isso nada melhor do que contratar Consultores que já tenham estado envolvidos em algo semelhante. Mas nada, mesmo nada, substitui a capacidade de reagir, com qualidade, à situação de Crise quando ela deflagra. (...) devemos ser rápidos, devemos dizer tudo, e devemos ser rigorosos. Aqui o objectivo é evitar as especulações, é tomar a iniciativa, é controlar a situação”. (Martins, Luís Paixão, Shiu…está aqui um jornalista – tretas, meias verdades e completas mentiras acerca da Imagem, Notícias editorial, 1ª edição, Fevereiro de 2001, Lisboa, p.p. 112, 113, 115)

Numa crise é necessário uma empresa ter um “rosto”, um único porta-voz. Essa pessoa tem de ser escolhida previamente e deve ser alguém com preparação (Media Training), que saiba falar com a comunicação social e transmita confiança.
“A Assessoria de Imagem recomenda a indicação de um único porta-voz para a situação de Crise. Pode ser o porta-voz tradicional, desde que tenha o perfil adequado (e, às vezes, não tem): ser calmo, não reagir em excesso, não ser especulativo. Deve ser humano e sensível, em particular quando possam estar em causa danos pessoais. E deve ter a noção exacta dos limites do seu papel”. (Martins, Luís Paixão, Shiu…está aqui um jornalista – tretas, meias verdades e completas mentiras acerca da Imagem, Notícias editorial, 1ª edição, Fevereiro de 2001, Lisboa, p.115)

Em certas empresas (multinacionais) são simuladas crises para testar a preparação que a empresa tem se estas ocorrerem - “Auditorias de prevenção” / simulacros.
A comunicação / preparação da crise é muito vantajosa para as empresas de relações públicas, que podem, desse modo, prestar os seus serviços contínuamente.

As crises como oportunidades:

“Só há dois tipos de empresas ou de empresários: os que tiveram um problema e os que vão ter”.


“Um optimista vê uma oportunidade em cada calamidade; um pessimista vê uma calamidade em cada oportunidade” winston Churchill.

Perante uma crise não se pode ficar de braços cruzados, desistir. É importante saber reagir e tentar dar a volta por cima. Se uma crise é inevitável, mais tarde ou mais cedo, então deve haver uma preparação prévia para a sua chegada. Existem empresas que conseguem reagir de tal maneira perante uma crise que até se renovam. A comunicação de crise incentiva a pensar que uma crise pode ser um mote para a empresa ganhar nova vida, redimensionar-se. Os que vêem nas crises unicamente problemas, se esquecem que também podem ser uma fonte de oportunidades, que infelizmente, só podem surgir nesses momentos difíceis. A exposição pública gratuita a que se vê submetida uma empresa quando está sofrendo uma crise não conseguirá nunca mais.O público estará mais atento que o normal sobre o que aconteça com uma empresa enquanto durem os acontecimentos. Neste sentido, se se gestiona bem uma crise, se tem a oportunidade de atenuar o signo negativo da cobertura mediática e, inclusive, é possível lançar mensagens positivas sobre a empresa, seus produtos e serviços.

Um clássico exemplo de como aproveitar uma crise foi protagonizado por Johnson &Johnson em Estados Unidos, em 1986. Naquele ano alguém colocou cápsulas envenenadas com cianureto em frascos de Tylenol que já estavam nas lojas. Morreram sete pessoas. A empresa tomou a decisão de recolher todo o produto (com um custo de 300 milhões de dólares), entrou em contato com as famílias das vítimas para oferecer seu apoio e adotou novas medidas de segurança para suas embalagens. Johnson & Johnson transmitiu uma imagem de preocupação pela segurança de seus produtos, de interesse pelas pessoas e de solidez em sua gestão. Isto foi reconhecido pelos meios e pelo público, que continua tendo Tylenol como um dos analgésicos líderes de mercado.
Deve-se pensar que não é por casualidade que uma civilização milenaria como a chinesa tenha composto a palavra crise com dois símbolos que representam "o perigo"e "a oportunidade".

Ignorar o impacto de uma crise é muito grave e pode matar uma empresa (isto agrava-se quando se trata de empresas de domínio social). Não prestar declarações, não falar, não comentar é muito mau. Se uma crise é mal administrada, a credibilidade e reputação da empresa desaparecem rapidamente aos olhos do público.
É necessário saber reagir, tomar medidas e, se possível, contribuir para dar uma nova vitalidade à empresa. As crises bem gestionadas, podem ser oportunidades para reposicionar uma marca e fortalecê-la.


Um caso de péssima gestão da crise: 11-M


A forma como o Governo de Aznar lidou com a crise também é alvo de críticas. "É possível afirmar que a atitude do Governo foi exclusivamente motivada por interesses do partido", conclui a comissão parlamentar, lembrando que, mesmo perante "o mais grave atentado terrorista da história de Espanha", nem sequer foi reunido o gabinete de crise. Mais, que foi feita uma "gestão egoísta, centrada na manipulação informativa e no monopólio dos meios de comunicação".

A comissão parlamentar de inquérito sobre os atentados de 11 de Março de 2004 (11-M), em Madrid, apresentou ontem as suas conclusões aprovadas na véspera. As maiores críticas vão para o Governo de José María Aznar, acusado de não ter valorizado a ameaça islamita antes do atentado que causou a morte a 192 pessoas e de ter passado "informação tendenciosa" sobre o ataque (insistindo na pista da ETA) para preservar as hipóteses de reeleição nas eleições de 14 de Março.


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Aula nº 20 - Karl Rove: o cérebro de Bush

O mérito de Bush é quase irrelevante. A principal qualidade do candidato é saber rodear-se das pessoas certas.

Sobre Karl Rove:
Dedicou-se de tal forma à política que nunca chegou a concluir nenhum curso universitário o que faz dele um autodidacta.
  • Na sombra
  • Em segundo plano
  • Eficaz
  • Infuente
  • Silencioso
  • Cultiva deliberadamente uma aura de mistério à sua volta
  • Tudo o que acontece na Casa Branca tem de alguma forma a sua marca.


Quem está realmente a dirigir a política norte-americana?


Rove é actualmente, a figura mais controversa da política americana. É visto por um lado, como um estrategista talentoso e, por outro lado, como um dissimulado capaz de recorrer aos golpes mais baixos.

O consultor político de Bush é um exemplo típico de “spin doctor”: a sua discrição é característica de um verdadeiro manipulador que não deseja ver o seu trabalho relacionado. Não existem atribuições directas entre o que tem sido feito e Karl Rove - isto porque, muitas dessas actividades são ilegais ou eticamente reprováveis - ninguém ignora que o estratego das vitórias eleitorais de Bush não é pessoa para se preocupar com escrúpulos.

A avaliação que se faz de um "spin doctor" resulta mais do desempenho do que da catalogação.

É irrefutável que Rove desempenhou/desempenha um papel decisivo na carreira política de Bush, e que as vitórias do mesmo podem ser endereçadas à implacável estratégia política do assessor.


“Manobra de Diversão” falhou:

O caso "Valerie Plame" correu mal a Karl Rove e, consequentemente, resultou na destruição da linha de argumentação de Bush.

Wilson viajou para Níger em fevereiro de 2002 em uma missão da CIA para investigar a veracidade de um relatório segundo o qual o país africano tinha vendido urânio ao Iraque para seu uso em armas nucleares.
O ex-embaixador concluiu, após um exaustivo exame, que essas afirmações eram infundadas.

O nome de Plame vazou poucos dias depois devido a uma revelação que seu marido atribuiu a uma vingança da Casa Branca.

Valerie Plame é casada com o diplomata Joseph Wilson, que num artigo de opinião publicado no diário "The New York Times", depois de revelada a identidade da sua mulher, manifestou a convicção de que a fuga de informação foi uma represália da administração Bush por ele ter acusado a Casa Branca de manipular as informações fornecidas pelos serviços secretos sobre as armas de destruição maciça iraquianas para justificar a ofensiva militar contra o Iraque, em 2003.

O escândalo que agita os EUA ameaça assim virar-se contra a administração republicana, já que Rove é reconhecido como um dos principais obreiros da carreira política e da eleição de Bush como presidente. Obrigado pelo tribunal a revelar as suas fontes, o jornalista da “Time”, Mattew Cooper, não só apontou Rove como primeiro informador como envolveu também no caso outro destacado funcionário da Casa Branca, Lewis Libby, tido como braço direito do vice-presidente Richard Cheney.

Bush tinha prometido que despedia o responsável por esta manobra de diversão (o que ele não esperava é que algum dia se suspeitasse sequer quem tinha sido).

Qualquer pessoa culpada do crime de revelar o nome de um agente da CIA (Central Intelligence Agency, serviços secretos externos norte-americanos) será despedida da administração Bush, garantiu a 18 de Julho o presidente norte-americano.

Quando a revista Time citou o nome de Karl Rove, Bush foi obrigado a demiti-lo formalmente da Casa Branca.

Com as eleições no horizonte, Bush "livrou-se" de Rove da Casa Branca ao mesmo tempo que o coloca a fazer aquilo para o qual ele é bastante dotado: vencer eleições.


Afinal: Quem é quem no caso Valerie Plame?


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Triunfo total de Bush


Karl Rove é conhecido como o “príncipe das trevas”. Diz-se que Bush deve sua carreira política (governador do Texas, presidente) à capacidade de Rove em desmontar adversários e adversidades não importando os meios.

4.6.06

Aula nº 19 - "Manobras na Casa Branca"

Realizado por Barry Levinson em 1997, Manobras na Casa Branca (Wag the Dog) é um filme satírico protagonizado por conhecidos actores como Dustin Hoffman (Stanley Motss), Robert de Niro (Conrad Brean) e Anne Heche (Winifred Ames).

A menos de duas semanas das eleições presidenciais, eclode um escândalo na Casa Branca: o Presidente dos EUA é acusado por uma adolescente (ainda por cima escuteira.) de "conduta sexual indecorosa", um "fait-divers" que poderá pôr em xeque a sua reeleição, numa altura em que as sondagens lhe dão uma confortável vantagem de 17%...
Para evitar o descalabro, é preciso abafar o caso e manter a opinião pública "distraída" durante onze dias. É então chamado de emergência Conrad Brean (Robert De Niro), um consultor político da confiança do Presidente. A solução encontrada é simples: "fabricar" uma guerra "virtual" a que o chefe de estado americano possa depois pôr cobro, rápida e heroicamente.
Apesar de não ser fácil encontrar um "inimigo", a escolha acaba por recair na aparentemente inofensiva. Albânia. Mas é preciso mais, falta concretizar a ideia, dar-lhe espessura. Por isso, Brean e a conselheira de estado, Winifred Ames (Anne Heche), recrutam Stanley Motss (Dustin Hoffman), um espalhafatoso produtor de Hollywood habituado a pôr em cena grandes espectáculos.
Juntos - e com a preciosa colaboração de uma lenda da música "country" (Willie Nelson) e de um especialista em "marketing" (Dennis Leary) - vão construir uma gigantesca encenação, um logro que a cada passo se torna mais rocambolesco: dos relatos das missões do misterioso (e inexistente) bombardeiro B-3 e das actividades militares suspeitas (e, claro, falsas) de terroristas albaneses às canções e mártires forjados, nada é demasiado inverosímil, porque, acima de tudo, o espectáculo tem de continuar.

A guerra com a Albânia pareceu-lhes ideal para distrair as atenções do escândalo sexual que envolvia o Presidente, até porque, tal como foi dito no filme “recordamos os slogans mas não as guerras”. Trata-se aqui de inventar a realidade, de recorrer a manobras de diversão num jogo que é levado até às últimas consequências.
A dimensão de uma guerra não pode ser comparável à dimensão de um escândalo sexual. Conrad Brean sabia perfeitamente que um acontecimento destes iria distrair as atenções do povo americano em vésperas de eleições. Rapidamente o escândalo sexual saiu das primeiras páginas para dar lugar a notícias da guerra. A estratégia não poderia ser melhor…além do escândalo ter perdido o impacto, o Presidente levava o bónus de poder “restituir a paz” ao país.
Durante todo o filme o Presidente nunca aparece e a única decisão que toma é irrelevante e ridícula: a cor do gato que irá aparecer na manipulação televisiva. Esta subtileza é uma metáfora da sua incapacidade. O Presidente que não passa de uma imagem, de uma figura obediente aos seus “conselheiros de comunicação”.

Tudo estava a correr bem até ao momento em que a CIA descobriu que tudo não passava de uma manobra política. A guerra tinha acabado documentava um canal de televisão. Era agora necessário criar uma nova estratégia para o plano não ir por água abaixo.

A guerra `acaba` antes das eleições e a popularidade do presidente começa a cair, mas logo surge outra idéia de continuar com a farsa : segundo eles, um soldado americano ficou preso nas linhas de batalha da Albânia e o presidente não pretende medir esforços para salvá-lo de lá. Eles apelidam o soldado de Old Shoe ou Sapato Velho e criam em cima dele um verdadeiro marketing político para alavancar os números do presidente. Esse `herói` de guerra, na verdade é um perigoso maníaco sexual, acusado de estuprar uma freira e está preso já faz doze anos e mal conhece a montagem pela qual é submetido. Devido a uma morte banal por causa de sua conduta sexual anormal, o que parecia bom torna-se melhor ainda e ele chega a Nova York morto e é saudado como um digno herói de guerra que morreu defendendo o país.

Sátira política? Obviamente que sim. O filme lança um olhar cáustico sobre as relações entre os media e a política e a forma como os primeiros podem ser manipulados em favor da segunda, moldando assim a bel-prazer a opinião pública. A mensagem é simples (e assustadora): hoje em dia, a fronteira entre facto e ficção é cada vez mais ténue e, tecnologicamente, as possibilidades de “fingimento” são quase intermináveis. Há, de resto, uma sequência de antologia que mais não faz do que realçar isso mesmo — na placidez de um estúdio de cinema, uma actriz agarrada a um pacote de batatas fritas pode ser transportada, digitalmente, para um cenário bélico dantesco e, por momentos, transformar-se numa jovem albanesa em fuga, gatinho branco ao colo, de uma aldeia em chamas…

Conrad Brean é o protótipo “spin doctor”. Ele tem a habilidade inegável de manipular políticos, a imprensa e, acima de tudo, o povo americano. É discreto e leva a sério a sua função – é um “resolvedor” de todos os problemas que possam surgir ao Presidente.
O mesmo já não se pode dizer de Stanley Motss – apesar de todas as advertências que lhe haviam feito, ele queria o reconhecimento do seu trabalho. Mostra-se assim inconformado por o seu esforço ter sido atribuído a dois actores novatos na propaganda de campanha do Presidente e decide contar a verdadeira história, mas isso era impossível, por se tratar do mais puro segredo de Estado…

Este filme de ficção traz consigo uma inevitável comparação com o caso Clinton-Lewinski (escândalo Monicagate). No entanto, Levinson confirmou a ausência de um ataque directo à administração Clinton: “O filme não tem a ver com Clinton nem com nada de específico na sua administração. É mais sobre os media e a manipulação diária da realidade, o modo como as coisas são fabricadas, o que vai sendo cada vez mais sinistro devido aos avanços tecnológicos. Ver já não é crer.”

A manipulação a que assistimos neste filme não é comparável àquela que vimos no filme Boris. Trata-se de uma manipulação grave, premeditada por um spin doctor (neste caso ficcional).

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28.5.06

Aula nº 18 - "Spin Doctors"


A apresentação de uma parte da realidade – aquela que interessa – pressupõe já uma comunicação manipulada por alguém para servir determinado interesse.

No entanto, a sofisticação do conceito de manipulação traz-lhe um sentido distinto do que foi referido anteriormente: manipulação como invenção, fabricação de factos que na realidade não aconteceram.
Este tipo de manipulação, em geral, aplica-se a questões de maior gravidade, ou seja, quanto mais ambiciosa e difícil for a situação a resolver mais necessidade existe de recorrer a este tipo de manipulação.

“Spin” significa desviar a trajectória. Levar a opinião pública para um caminho para o qual ela não iria se não existisse uma intervenção. A opinião pública é influenciada através de informações favoravelmente manipuladas que visam a vitória de determinado candidato em época de eleições.

Como sabemos que, nos dias correm, não há ingenuidade quando se trata de promover a imagem dos governos, parece que a ilusão da transparência é a nova táctica para recredibilizar os “spin doctors”, baixar as defesas dos jornalistas e da opinião pública e conseguir um “spin” mais perfeito, uma encenação mais convincente. Ao negarem o seu próprio papel, os assessores mediáticos e os homens por trás do marketing político lançam-se à conquista do terreno estratégico que têm vindo a perder. Ou seja: criando a ilusão de que pouco interferem na informação e na imagem do governo, os mediadores da comunicação governamental reforçam a eficácia das suas técnicas, pois convencem o público de que o que parece, é. Mas no fundo, como dizia Nick Assinder, o discurso do “no spin” é apenas “another bit of spin from the kings of spin”.

Os “spin doctors” têm características secretas e na maioria dos casos ninguém assume esta actividade desregulamentada - obviamente por se tratar de um ‘trabalho sujo’ baseado em vigarices que não podem ser apregoadas publicamente porque, além de tudo, são condenáveis. Não se trata já de um assessor de imprensa mas sim de alguém que sem olhar a meios serve o seu cliente utilizando, se necessário, os golpes mais baixos. Um “spin doctor” não deixa impressões digitais directas e não contacta com a comunicação social. “Homem do pormenor e especialista em golpes baixos, é um pioneiro das novas tecnologias”. (revista Visão de 13 de Novembro de 2003)
Assim, o termo consultor de tecnologia política (inserido na área das Relações Públicas) é um eufemismo para manipulador, para “spin doctor”.

Características de um Spin Doctor:

- Discreto
- Lugar que ocupam na hierarquia é irrelevante
- A actividade não é regulamentada e a sua existência pode até ser negada
- Tem de ter relação com o poder
- Transparência não existe (utilizam campanha negra sempre que possível)
- Comunicação Social tem de ser dominada

Os dez mandamentos do “spin doctor”:

- Haver um só maestro (centralizar a informação)
- Jogar bem (não tolerar fífias)
- A mensagem, nada mais que a mensagem
- Alimentar os meios de comunicação a tempo e horas
- Guardar os bons pedaços (cachas, fugas) para os amigos
- Martelar a informação
- Tomar constantemente o pulso à opinião pública
- Testar e medir cada decisão (grupos de controlo
- Roubar ao adversário os melhores argumentos
- Enfeitar, ameaçar, por vezes bater
(Mandamentos retirados da revista Visão de 13 de Novembro de 2003)

Exemplos de manipulação:

1.

Os meses que precederam a ocupação do Iraque, em 19 de Março de 2003, assistiu-se a uma campanha de manipulação da informação a nível mundial.
As principais agências de comunicação social divulgavam informações provenientes das mais diversas fontes e origens todas num único sentido: sustentarem a tese dos EUA de que a o ditador do Iraque possui armas de destruição maciça.
Em vários países, como Portugal, muitos jornalistas e especialistas em questões militares apoiaram activamente esta campanha preparando a opinião pública para aceitar a inevitabilidade de uma intervenção no Iraque, a fim de acabar com os arsenais e a produção das alegadas armas de destruição maciça.
Um ano depois da ocupação, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha reconheciam que estas armas não existiam e que haviam enganado a opinião pública. Acusaram na altura os seus serviços de espionagem de lhes terem fornecido de informações forjadas.

Segundo o jornalista brasileiro, o nível de manipulação da informação pelos meios de comunicação dos EUA continua firme. O grau de manipulação da imprensa dos Estados Unidos relativamente à invasão militar no Iraque «é e foi muito elevado», frisa. «Houve alguns veículos [de comunicação social] que tentaram furar esse comportamento, mas o patriotismo depois do 11 de Setembro, até em função do grau de manipulação que existiu, era tão intenso e tão grande, que os que tentaram criticar essa manipulação ou fazer um jornalismo mais sério, mostrando os factos ao invés de só reproduzir os `releases´ oficiais da Casa Branca, `deram com os burros na água´. Ninguém lhes deu atenção e chegaram mesmo a tachá-los de antipatriotas, de estarem contra o país, de ajudarem os terroristas», recorda o autor.


“Em período eleitoral, os candidatos «vendem-se» aos seus eleitores sob a forma de pastilhas televisivas que substituem as tradicionais profissões de fé.
(…) exércitos de peritos em comunicação de massas põem ao serviço dos candidatos as técnicas mais sofisticadas do marketing publicitário a fim de lhes construir, como a qualquer sabonete, uma «imagem de marca».
Rodeado de «conselheiros de comunicação» muito hábeis, Richard Nixon gastou, em 1968, mais de 20 milhões de dólares em publicidade televisiva com o único objectivo de assegurar que o seu avanço de quinze pontos em relação ao seu rival democrata Hubert Humphrey não baixasse mais do que 1%. E conseguiu-o.
Desde que, em 1989, o regime democrático se universalizou, os conselheiros americanos em marketing político, considerados os melhores do mundo, são recrutados por candidatos de todos os sectores em eleições por todo o planeta. Assim, constata Serge Halimi, «os quatro principais “consultores” das duas campanhas presidenciais vitoriosas de William Clinton – o trio de 1992 (James Carville, Goerges Stephanopoulos e Stanley Greenberg) e o solo de 1996 (Richard Morris) -, mas também o conselheiro de vários parlamentares republicanos, Arthur Finkelstein, universalizaram as suas operações.” (Ramonet, Ignacio, Propagandas Silenciosas - massas, televisão, cinema, Campo das Letras, 1ª edição, Março de 2001, p.p. 74/ 75)

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Aula nº 17 - "Spinning Boris"

Realizado por Roger Spottiswoode em 2003 e com um elenco onde se encontram notáveis actores como Jeff Goldblum (George Gorton), Liev Schreiber (Joe Shumate) e Anthony LaPaglia (Dick Dresner), Spinnig Boris traz toda a verdade de um segredo que marcou a Rússia para sempre...

Baseado em factos verídicos, o filme retracta a história de três consultores políticos americanos que foram contratados secretamente por uma elite da Rússia para convencer o povo a pôr fim ao comunismo através da reeleição de Boris Iéltsin a 16 de Junho de 1996.
Estes factos vieram a público numa história publicada pela revista Time após Iéltsin ter sido eleito. O artigo intitulava-se: "Yanks to the Rescue; The secret story of how american advisers helped Yeltsin win”.

Resumo do filme:

A 109 dias das eleições parecia quase impossível a vitória de Iéltsin, que se encontrava apenas com uma percentagem de 6% a seu favor face aos 31% do líder comunista Gennady Zyuganov.
Os consultores George Gorton, Dick Dresner e Joe Shumate puseram em prática as suas estratégias que acabaram por resultar na primeira eleição democrática da história daquele país.

Começaram a enxugar os longos, glaciais discursos de Yeltsin, que chegavam a durar três, quatro horas. Tiraram o homem do gabinete e o fizeram plantar árvores e beijar criancinhas. O eleitorado russo começou a derreter. A 96 dias da eleição, Yeltsin esquentou para 9%, enquanto Zyuganov esfriava para 28%. O candidato imperial e distante começou a adotar um tom familiar. Faixas, com um Yeltsin cada vez mais sorridente, garantiam que o voto dos russos nele seria "para o bem de seus filhos". O inacreditável acontecia: o presidente aparecia dançando ao ar livre num parque em Moscou, com a elegância de um pato gordo, balançando os braços num show de rock. A 76 dias do pleito, Yeltsin atingiu os dois dígitos: 12% contra 24% de Yuganov.

Esta é apenas uma demonstração de que os consultores têm quase sempre que colmatar a imagem dos políticos para que trabalham. Neste caso, a imagem carrancuda de Iéltsin teve de ser substituída por um ar mais afável e um sorriso sempre presente. Só assim ele poderia começar a conquistar a simpatia das pessoas.

Para porem em prática as estratégias de marketing político os consultores recorreram à utilização de sondagens (sabendo as opiniões das pessoas poderiam posteriormente alterá-las) e focus group (segundo a reacção de um grupo de individuos eram escolhidas as imagens do Presidente que iriam ser veiculadas junto do resto da população). Entre outras coisas, tentaram também, junto dos camponeses, descobrir as necessidades do povo rural, utilizaram cartazes para divulgação e ocuparam espaço televisivo com um apoiante de Iéltsin.

Aconselharam inclusivamente ao recurso a soundbites, manipulação e mesmo campanha negativa. As campanhas negativas e os anúncios na televisão ajudariam bastante a melhorar a posição de Iéltsin mas a filha do mesmo, inicialmente, negou a utilização destas estratégias. Só restava então serem os próprios consultores a influenciar o presidente.

O meu nome é George Gorton... estou a ligar de "Moscovo. A razão do meu telefonema é que eu posso desaparecer ou ser morto hoje. Nestes caso, quero que a polícia saiba o que se passou..."

Sem poderem ser descobertos e sem conhecerem bem as circunstâncias em que se encontravam e o jogo em que aceitaram entrar, os consultores ponderaram regressar aos EUA quando surgiu o rumor de que eles estariam a trabalhar para Iéltsin. Este facto iria pôr em causa o orgulho nacional (seria um escândalo americanos terem ajudado um candidato russo a ganhar as eleições) e colocar a vida de Gorton, Shumate e Dresner em risco.

Mas os consultores decidiram ficar e esperar pelos resultados...

A estratégia foi um sucesso...e o candidato venceu por 35.2 %.

Schwarzenegger Governador da Califórinia:

Gorton, um dos consultores políticos de Iéltsin, é conhecido também como um estrategista, responsável pela campanha política bem-sucedida de Schwarzenegger.

O ator Arnold Schwarzenegger contratou uma equipe de experientes assessores para auxiliá-lo na disputa eleitoral pelo cargo de governador da Califórnia.
O grupo inclui George Gorton, Richard Dresner e Joe Shumate, uma equipe conhecida e respeitada nos círculos políticos dos Estados Unidos.

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Schwarznegger Governador

Aula nº 16 - Luís Paixão Martins no ISLA - Gaia

A palestra de Luís Paixão Martins, no passado dia 31 de Março esteve enquadrada no âmbito da cadeira de Estratégias da Comunicação leccionada pelo professor João Paulo Meneses.

Luís Paixão Martins é director-geral da LPM Comunicação, empresa que fundou em 1986 como a primeira agência de marketing institucional em Portugal. Ele e as suas equipas trabalharam em projectos de comunicação e relações públicas de grande projecção, como Lisboa Capital da Cultura, Expo’98, Census 2001, lançamento do Centro Colombo, abertura da Casa da Música, campanha eleitoral de José Sócrates às legislativas de 2005 e campanha eleitoral de Cavaco Silva às presidenciais de 2006.
Paixão Martins confessa-nos que ao longo destes anos a empresa alcançou uma dinâmica e uma dimensão que ele próprio não esperava.
Antes de ser consultor de comunicação e relações públicas, fez carreira na comunicação social como animador de rádio, jornalista e editor.
É autor de dois livros sobre assessoria mediática, As Armas dos Jornalistas e Shiu…está aqui um jornalista, e do prefácio à edição portuguesa de A Queda da Publicidade e a Ascensão das Relações Públicas, de Al e Laura Ries, que também traduziu. É também o responsável pelo prefácio do livro Propaganda de Edward L. Bernays.


Luís Paixão Martins aceitou vir ao ISLA com a condição de que seriam os alunos a expor as dúvidas e a formular as questões a que ele responderia. O início da palestra funcionou como uma espécie de contextualização aos assuntos que posteriormente iriam ser abordados e, Luís Paixão Martins considerou que era essencial falar um pouco do livro Propaganda e do autor do mesmo.

Propaganda é um livro controverso sobre como os vários poderes – governantes, grandes empresas, grupos de interesses, etc. – procuram controlar a opinião pública.Publicado pela primeira vez em 1928, Propaganda é, de facto, o primeiro manual de referência sobre a comunicação de massas. Merece tal designação pois é uma exaustiva apresentação de métodos e práticas de como moldar e controlar a acção e o pensamento do público no domínio da política, dos negócios, da arte, da educação e da ciência.

Considerado como “The father of the spin” Bernays desenvolve a teoria de que se a nossa sociedade não tivesse comunicação seria um caos.

Algumas perguntas feitas a Luís Paixão Martins:

O que faz um consultor de comunicação?


Em primeiro lugar, define uma estratégia. As campanhas eleitorais em Portugal são muito definidas e previamente organizadas ao milímetro (muito diferentes das campanhas eleitorais de Cabo Verde, por exemplo).

Uma campanha eleitoral é uma campanha de comunicação
. Durante a mesma é preciso compreender muito bem o que se está a passar junto dos eleitores (através de sondagens, focus groups, etc). É por isso essencial que os consultores externos conduzam os políticos a um trabalho mais profissional.
As decisões são tomadas mais em função de estudos de opinião do que em função da campanha política.

É necessário também definir uma estratégia de conteúdos (outdoors / painéis / folhetos / imagem / tempos de antena). Isto inclui também os soundbites e as intervenções dos próprios políticos.

Por último, define-se a própria campanha. Segundo Luís Paixão Martins são os directores das tv’s que acabam por definir os comportamentos dos políticos. “As campanhas são muito mediáticas, muito televisivas e são os directores das tv’s que acabam por definir os comportamentos dos candidatos da campanha”.
Aqui, os consultores têm o papel de formatar a campanha eleitoral em função das capacidades de transmissão televisiva.

A agência responsável pela comunicação e marketing político das candidaturas de José Sócrates e Cavaco Silva foi também a LPM.
Segundo o consultor de comunicação, Sócrates e Cavaco só ganhariam as eleições se saíssem das respectivas margens políticas – “As eleições ganham-se alargando a base eleitoral. A campanha serve, não para motivar o eleitorado garantido, mas sim os indecisos”.

O director da LPM distingue as relações que Sócrates e Cavaco têm com a comunicação social: “Sócrates tem um chip mediático na cabeça”. Conhece os jornalistas e é inclusivamente amigo de alguns. Pelo contrário, Cavaco Silva nunca teve uma boa relação com os media – “É uma espécie de acossado. Precisa de grande estímulo dos consultores para ter uma repercussão mediática”.

Relativamente à questão da mentira ou omissão como resposta a um jornalista, Luís Paixão Martins defende que, o facto de estarmos numa sociedade da imagem não significa que as palavras tenham perdido o valor. Por isso, considera que é importante acertar naquilo que se diz para não serem criados mal entendidos.
Refere também que ninguém na sua empresa mente aos jornalistas porque isso envolveria, mais tarde ou mais cedo, a descredibilização da própria empresa. Não descarta, no entanto, a omissão como forma de resposta e aceita que manipular e influenciar podem ser sinónimos.

Um rumor deve ser desmentido ou ignorado?

Apoiado na opinião de Bernays, Luís Paixão Martins defende que qualquer rumor falso deve ser ignorado.

Segundo o consultor vivemos hoje num mundo tablóide – “Nós hoje não temos uma visão do mundo muito larga”. Os planos de TV são cada vez mais fechados e por isso é possível mostrar-se apenas aquilo que interessa. Isto é manipulação porque a realidade não é mostrada integralmente. Escolhe-se apenas a parte da realidade que interessa, ou seja, o que vai de encontro com a obtenção de determinado objectivo.

Quanto menos visível for o marketing, mais eficiente é
. Isto porque o interesse não é criar protagonismo à empresa, mas sim aos clientes que a procuram.
“Quando trabalhamos bem somos desejados pelos nossos clientes e valorizados pelos concorrentes do produto” remata Paixão Martins.

Links de Interesse:

Aula nº 15 - Campanha Negativa

Numa campanha negativa o candidato não se limita apenas a reforçar as suas qualidades, mas também se empenha a dizer mal do adversário.

Características de Campanha Negativa:

As campanhas negativas são ainda uma novidade em Portugal, o mesmo não se pode dizer relativamente ao Brasil e aos EUA.

- Acusações (implícitas ou explícitas), insinuações, comparações, criação ou aparecimento de rumores.

- Cartazes e publicidade dirigida

- Insultos e dialéctica violenta (uma das armas da campanha negativa muito utilizada no Brasil)

Este tipo de campanha negativa só fideliza os votos das pessoas que já são desse partido, a não ser que se denuncie uma situação em concreto.


Nas últimas eleições legislativas assistimos em Portugal, pela primeira vez, a uma campanha negativa. Tivemos uma campanha eleitoral - promovida pelo PPD-PSD de Pedro Santana Lopes - marcadamente negativa e destrutiva.

(...) como jornalista a viver há 10 anos nos EUA e a acompanhar diariamente a realidade política americana, admito que fiquei bastante surpreendido com a crescente americanização da política portuguesa. O mimetismo é inescapável. Não estou aqui a falar do formato civilizado – a expressão não é minha – do debate, mas da forma como a campanha propriamente dita está a ser gerida. Os rumores e boatos, os ataques pessoais feitos por interposta pessoa, enfim toda a “campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana. Exagero? Acredito que não. O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso mesmo ontem à noite durante o debate quando confrontado directamente por Sócrates em relação ao célebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.


O rumor da homossexualidade de José Sócrates jogou-se na opinião pública, principalmente na comunicação social. Os media deram ao rumor um prestígio que na verdade ele não tinha e este foi utilizado como tema principal durante a campanha.


É verdade que sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral portuguesa. Mas é também verdade que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.

Devem ou não os rumores serem desmentidos?

- Deve-se tentar passar despercebido e tentar que o rumor morra sozinho. O melhor é desprezar o rumor.

- Há quem diga que a melhor defesa é o ataque. Joe Napolitan defende que um político deve sempre responder e tentar defender-se de um rumor:

«si tu candidato está ganando con tranquilidad, y tú estás seguro de que el plan de tu campaña está bien deseñado que puede compensar las acusaciones del adversario (…) entonces quizá, quizá, puedas salir airoso ignorando a tu adversario. Pero yo aconsejo que no lo hagas» (in Salgado, Lurdes Martin, Marketing Político: Arte y Ciencia de la Persuasion en democracia», Paidós, Barcelona, 2002, pag. 236)


Links de Interesse:

Sócrates 5, Santana 3

Portugal a 1800 Km de distância


21.5.06

Aula nº 14 - Marketing Político e Marketing Eleitoral

Há quem diferencie marketing político de marketing eleitoral:

No entanto, uma campanha tem de ser permanente para ser eficaz. Actualmente, são raros os casos em que os últimos dias das eleições são determinantes para o partido que ganha. Por isso, o comportamento do político enquanto se encontra no poder é decisivo.
Antes de ganhar as eleições o político já está em campanha, demore o tempo que demorar.

“O conceito de “campanha permanente” é recente. Basicamente, traduz a ideia de que as campanhas de comunicação política não terminam com a vitória nas eleições. Alcançado o poder, o partido necessita, para manter-se nele, de utilizar as mesmas técnicas de comunicação e de criação de imagem que utilizou durante o período de confronto eleitoral”. (Loureiro, Vítor Manuel Gonçalves, Nos bastidores do jogo político. O poder dos assessores, Edições MinervaCoimbra, 1ª edição, Dezembro de 2005, p. 161)


Quatro áreas fundamentais do marketing político:


1. Estudos de Opinião (sejam sondagens, focus group…)

Sondagem
– Os media tornaram-se grandes utilizadores de sondagens de opinião. Além das escolhas partidárias e da medida da satisfação que os governos e homens políticos colhem junto da opinião, os media costumam também promover e publicar sondagens acerca de comportamentos e questões controversas. As sondagens têm sempre uma margem relativa de erro e a sua interpretação exige o conhecimento exacto das condições em que foram realizadas para não se tirarem ilações indevidas dos seus resultados. (Rodrigues, Adriano Duarte, Dicionário Breve da Informação e da Comunicação, Editorial Presença, 1ª edição, Lisboa, 2000, p. 113)

"Actualmente, as sondagens são um dos instrumentos utilizados pelos políticos para, em cada momento, avaliarem ou perceberem o estado da opinião pública face a um determinado acontecimento, pessoa, decisão ou medida". (Loureiro, Vitor Manuel Gonçalves, Nos bastidores do jogo político. O poder dos assessores, Edições MinervaCoimbra, 1ª edição, Dezembro de 2005, p. 161)

Focus Group (grupos focalizados) – Junta-se um conjunto de pessoas, escolhidas sociologicamente, numa sala. Trata-se de uma amostra representativa da população.

2. Publicidade /Propaganda/merchandising

O cartaz e o outdoor, enquanto instrumentos de comunicação de massas, tornaram-se, ao longo dos tempos, grandes potenciadores da mensagem política. Páginas na Internet e os blogs dos políticos são também fundamentais para difundir as ideias de cada partido.
As canetas, t shirts e porta-chaves com o logotipo do partido ou a cara do político são também utilizados para incentivar o eleitorado ao voto.

3. Marketing directo
Os partidos escolhem como alvo principal os abstencionistas e os indecisos. Através de comícios, arruadas e últimas promessas, os líderes tentam conquistar mais alguns votos. Em época de eleições os políticos saem para a rua para terem contacto directo com os eleitores e as caravanas de automóveis passeiam pelas cidades a divulgar o respectivo partido.

4. Relações Públicas / Assessoria de Imprensa

Entrevistas, declarações programadas, reacções (reagir a tempo) – ocupação do espaço mediático.


A arte manipuladora do Soundbite:


Uma frase curta e citável que os outros repetem e que tem repercussões, a concentração de uma ideia numa frase-chave – todos os políticos gostariam de formular um soundbite na sua comunicação.


Exemplos de soundbites:

“To be or not to be”



"Delenda est Carthago"

Catão, o Antigo, patrício e político romano, foi encarregado no ano de 175 a.C. de uma missão a Cartago; a metrópole impressionou-o pela riqueza, que poderia ameaçar o predomínio de Roma no Mediterrâneo. A partir daí e durante dezenas de anos, Catão terminava todos os seus discursos no Senado - fosse qual fosse o tema - com a expressão "Coeterum censeo Carthaginem esse delendam": "E julgo, além disso, que Cartago deve ser destruída." A frase passou à história na versão reduzida de "Destruamos Cartago!" Catão viveu os anos suficientes para assistir ao início da Terceira Guerra Púnica (149-146 a.C.), que terminou quando as forças romanas arrasaram Cartago. "Delenda est Carthago": uma frase, um meme, uma palavra de ordem, um "slogan", um "sound bite" de um homem só no Senado de Roma - e Cartago foi destruída.

"Falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam pá, e não os vejo a fazer nada pá, fico chateado, concerteza que fico chateado pá"



Há tanta gente a disputar o espaço mediático, que os poucos que o conquistam também usufruem de pouquíssimo tempo (15 segundos no máximo) – ou eles desperdiçam ou aproveitam este tempo. Ser eficaz é quando o político consegue transmitir a sua mensagem.

"Las exigencias del medio televisivo, en efecto, han impuesto un estilo «espectacular» también a la política, consistente en imágenes y discursos rápidos y de efecto" (Cavazza, Nicoletta, Comunicación y Persuasión, Acento Editorial, 1999, Madrid, p. 58)

"Y los spots, así como los discursos pronunciados en ocasiones oficiales por los políticos, estan cada vez más basados en eslóganes, fáciles de entender, memorizar y recordar" (Cavazza, Nicoletta, Comunicación y Persuasión, Acento Editorial, 1999, p. 59)

O marketing político ocupa-se de tudo o que diz respeito à imagem exterior do político
. A reputação, os valores, a forma como se veste, a forma como mexe as mãos. Trata-se de uma arma muito forte que pode fazer o político ganhar as eleições, mas que não o pode manter se este tiver mais defeitos do que qualidades. "O sucesso de um político, na sociedade contemporânea depende diretamente da visibilidade pública e repercussão positiva de sua imagem no cenário público. Na prática do marketing político, toda e qualquer mensagem precisa ser meticulosamente planejada, isso se estende também ao discurso desde as palavras utilizadas, como a tonalidade destas, a gesticulação e expressão facial do candidato".


“Poder político e comunicação estão, cada vez mais, nos tempos que correm, indissoluvelmente associados, por via da força efectiva da opinião pública e do interminável aperfeiçoamento tecnológico no campo dos meios de difusão mediáticos. A esta realidade acrescem outras forças, todas associadas ao fenómeno da conquista e manutenção do poder, como é o caso do aperfeiçoamento das técnicas do marketing eleitoral e da utilização destes novos meios com a finalidade de fazer passar uma determinada imagem que facilite o fenómeno de identificação entre um candidato ou grupo político, e os eleitores” (Santos, Margarida Ruas dos, Marketing Político, edições CETOP, 1996, p. 137)

"Um dos factores que joga a favor do poder político, é o facto de ser difícil ao homem comum conhecer em profundidade a verdadeira personalidade e as reais intenções do líder político. A distância e o isolamento face ao público, por um lado, e o peso de que se revestem a autoridade e a importância do cargo, por outro, tornam impossível uma avaliação aprofundada que vá além das aparências. O poder faz reverter a seu favor esta impossibilidade, ocultando as verdadeiras intenções e agindo de acordo com necessidades e conveniências políticas. Importante é que o seu detentor aparente virtudes e qualidades geralmente aceites como positivas e adequadas, e que toda a acção política vise criar prestígio e boa reputação.” (Santos, Margarida Ruas dos, Marketing Político, edições CETOP, 1996, p. 140)


Link de Interesse:

Aula nº 13 - Manipulação da Informação

Manipulação: Processo de dissimulação que consiste em enganar, fazendo crer em factos que não existem ou em opiniões contrárias àquelas que se professam efectivamente. A manipulação é uma das formas de coacção e de limitação da liberdade que joga com a dimensão cognitiva e afectiva da informação e tanto pode existir em regime políticos autoritários como democráticos. Os processos de manipulação tanto podem ter origem na propaganda política e nas estratégias publicitárias como na informação mediática. (Rodrigues, Adriano Duarte, Dicionário Breve da Informação e da Comunicação, Editorial Presença, 1ª edição, Lisboa, 2000, p. 83)

Mas nem sempre manipular é o mesmo que enganar. Existem casos mais soft em que manipulação pressupõe apenas mexer, alterar algo.
Quando existe um objectivo existe também uma estratégia que exclui aquilo que não interessa ou não convém. A informação é seleccionada tendo em conta a satisfação dos interesses de cada um. Por esta razão devemos partir do pressuposto que quase toda a informação que chega ao jornalista é construída, fabricada, manipulada.

“Ao referir-se ao relacionamento entre os políticos e os jornalistas, Soares foca, uma vez mais, a sua experiência pessoal:

“ (…) não me isento de culpas no relacionamento com a imprensa. A autocrítica que faço é que, algumas vezes, como quase todos os políticos, não resisti à tentação de instrumentalizar a imprensa (…) Estava numa luta difícil, de vida ou de morte política. Foram empregues contra mim, muitas vezes, armas de grande eficácia e eu, evidentemente, procurava defender-me a atacar, utilizando o mesmo tipo de armas. Em momentos difíceis, fiz fogo com o material que tinha à mão. Nesse sentido, não me isento de culpas, que as tenho e grandes, em matéria de relacionamento com a comunicação social”. (Serrano, Estrela, As Presidências Abertas de Mário Soares – as estratégias e o aparelho de comunicação do Presidente da República, Colecção Comunicação, Edições MinervaCoimbra,1ª edição, Março de 2002, p. 109)

Para os protagonistas se afirmarem na comunicação social necessitam de uma boa estratégia de comunicação que, directa ou indirectamente, visa sempre a ocupação do espaço mediático. Só que este espaço mediático é limitado e finito. Existe sempre concorrência e há sempre protagonistas que querem ocupar este espaço disputado por muitos.
O espaço mediático é uma guerra, uma luta em que ganha quem tiver melhores argumentos. Mas alguém tem sempre de ficar de fora…

O que fazer para conseguir que o espaço mediático seja preenchido por mim e não por outros?

- Dar valor mediático às iniciativas
- Prender a atenção dos jornalistas, que não se limitam a recolher iniciativas com valor mediático já que estas também são inúmeras e o espaço não chega para todas.

Para contornar, ou ‘controlar’, os media – por definição independentes e poderosos nas democracias ocidentais, onde são o primeiro sinal da liberdade – o poder político cria estruturas e adopta condutas que, por um lado visam minorar os efeitos negativos sobre si exercidos pelo papel fiscalizador da comunicação social e, por outro, fazer passar nos diversos meios, as mensagens que lhe interessa enviar à opinião pública. Os recursos e as técnicas usados pelos governos ao serviço da sua imagem são cada vez mais sofisticados, acompanhando a evolução permanente das conquistas tecnológicas ou das ciências sociais e do ‘marketing’ político.
Trata-se de tentar influenciar a comunicação social na divulgação dos temas que convém aos governos ver noticiados e conforme o ângulo que lhes interessa. Por exemplo: ocupar os jornalistas com material ‘informativo’ capaz de os manter afastados da atenção a questões importantes, mas delicadas para o governo
.

Quando um protagonista não quer que os jornalistas noticiem aquilo que eles querem noticiar recorrem às manobras de diversão definidas como uma forma de desviar a atenção dos jornalistas.

Podemos definir manobras de diversão como a criação de factos alternativos para diminuir o impacto de notícias negativas.

Mas para se concretizarem estas manobras de diversão torna-se fundamental que os protagonistas saibam antecipadamente as notícias negativas que irão ser divulgadas. Só assim é que é possível desviar a atenção para uma outra notícia.
Estas manobras de diversão funcionam como uma espécie de “cortina de fumo” que nos obriga a olhar para outro lado. Como o protagonista não consegue controlar o espaço mediático tanta manipulá-lo com recurso a estas manobras de diversão.

Pseudo-acontecimentos baseiam-se numa (falsa) realidade criada por alguém que tem nisso interesse. Trata-se de algo artificial que se destina a captar a atenção.
Os pseudo-acontecimentos são o grau máximo de sofisticação que os protagonistas têm para que os jornalistas lhes prestem atenção.
Há uma realidade construída (os factos são inventados, não são reais) em função de criar notícias positivas com valor mediático.

Exemplo: Sondagens de opinião – podem ser criadas espontaneamente e constituem notícia.

“Boorstin introduziu o conceito de pseudo-acontecimento para definir várias situações desenvolvidas por jornalistas, políticos e relações públicas para criar um evento que, em condições normais, não se produziria. Trata-se de um acontecimento que não é espontâneo, mas que surge porque alguém o planeou, ou encorajou, para que fosse noticiado.
A sua relação com a realidade é ambígua, e em muitos casos serve para dar um estatuto de «real» ao que é fictício”. (Santos, José Rodrigues dos, Comunicação, Prefácio, Outubro de 2001, p. 105)

“No último meio século, uma crescente proporção da nossa experiência, do que lemos, vemos e ouvimos, provém de pseudo-acontecimentos, queixou-se Boorstin” (Santos, José Rodrigues dos, Comunicação, Prefácio, Outubro de 2001, p. 106)

Exemplo de Pseudo-Acontcimento: As Presidências Abertas de Mário Soares
“A Presidência Aberta é um “pseudo-acontecimento”, no sentido em que Boorstin definiu esse conceito. Com efeito, a Presidência Aberta não é um acontecimento espontâneo. Surge porque foi planeada. Foi criada para ser coberta pelos media, como Soares repetidamente afirmou. O seu sucesso mede-se pela amplitude da sua cobertura e pela capacidade de fazer passar os enquadramentos desejados. Soares considerava, aliás, a presença dos órgãos de comunicação social componente essencial da iniciativa. (…) Ora, a Presidência-Aberta é um acontecimento intencional. Constituiu uma tentativa de criar um acontecimento para dar visibilidade ao Presidente que queria ser notícia (para informar o público de que estava pessoalmente preocupado com a vida das populações e com os seus problemas, dado que não tinha poderes para resolver esses problemas)”. (Serrano, Estrela, As Presidências Abertas de Mário Soares – as estratégias e o aparelho de comunicação do Presidente da República, Colecção Comunicação, Edições MinervaCoimbra,1ª edição, Março de 2002, p. 130, 131)


“ (…) Soares atribuía aos jornalistas uma função de “guardas” do regime democrático com o dever de informarem os cidadãos e vigiarem o regime. Contudo, Soares não confiava muito no profissionalismo e na independência dos jornalistas. Na prática, utilizando as suas capacidades de comunicador, via os media noticiosos como instrumentos úteis à sua estratégia, criando, frequentemente, ocasiões para intervir publicamente através de declarações e actos que lhe proporcionassem apoio público e uma imagem positiva. A sua estratégia centrava-se, essencialmente, na criação de situações mediáticas e de “pseudo-acontecimentos”, para atrair os media noticiosos e, através deles, divulgar as suas mensagens”. (Serrano, Estrela, As Presidências Abertas de Mário Soares – as estratégias e o aparelho de comunicação do Presidente da República, Colecção Comunicação, Edições MinervaCoimbra,1ª edição, Março de 2002, p. 116, 117)

Quase que os jornalistas são tornados reféns da notícia que alguém pretenda que seja transmitida. Isto porque existem muitas formas dum protagonista conseguir que os jornalistas publiquem.
O que é publicado faz muitas vezes parte de um processo complexo em que o jornalista funciona meramente como mediador. O jornalista acaba por colaborar na estratégia quando é empurrado para publicar uma notícia que não tem valor ou mesmo que ele não gostaria de publicar.

Aula nº 12 - Avaliação intermédia dos blogues

- Avaliação intermédia com carácter indicativo

Os alunos presentes foram elucidados relativamente à qualidade do trabalho que têm vindo a realizar nos respecivos blogues.

Esta avaliação não teve por objectivo a atribuição de uma nota final.